domingo, 3 de abril de 2011

Da série: uma carta aos domingos

A carta de hoje foi lida até recentemente como a prova cabal de que já no início de sua carreira na Universidade de Basel Nietzsche havia se decidido pela filosofia. Mas Christian Benne contestou veementemente esta alegação em seu estudo monográfico sobre Nietzsche e a filologia clássica alemã. Há quem pense que ele se excedeu no seu esforço de defender a importância da filologia clássica para a obra de Nietzsche. A referência completa do estudo de Benne é a seguinte: BENNE, C. Nietzsche und die historisch-Kritische Philologie. Berlin: Walter de Gruyter, 2005.
Vou ficando por aqui nos comentários de hoje, pois preciso cuidar do almoço que preparo para alguns amigos. Aguardo a contribuição de vocês. Tenham um bom domingo.


Carta envida por Nietzsche a Wilhelm Vischer(-Bilfinger), Conselheiro da Universidade de Basel, provavelmente em janeiro de 1871.

Ilustríssimo Senhor Conselheiro,

Para o que intenciono expor a seguir necessito particularmente de vosso generoso conselho e da sincera simpatia que o senhor tantas vezes tem demonstrado em relação a mim. Como verá, considerei seriamente o bem da universidade e é o real interesse desta que me instiga à detalhada exposição que se segue.

Meus médicos terão relatado ao senhor em que medida me encontro novamente enfermo e que a causa deste estado insuportável é a fadiga excessiva. Eu me perguntei repetidas vezes como este esgotamento, que se apresenta na metade de quase todo semestre, poderia ser explicado; e tive até mesmo que ponderar se eu não teria que interromper de todo minhas ocupações na universidade, por ser esta uma forma de vida não apropriada à minha natureza. Contudo, eu finalmente cheguei a uma outra concepção a este respeito, que eu gostaria de vos expor agora.

Eu aqui vivo em um conflito peculiar, e é este conflito que tem me esgotado tanto e me consumido inclusive fisicamente. Eu, que por natureza sou fortemente instado a refletir filosoficamente nas coisas de modo unitário e a perseverar em um problema de forma duradoura e tranquila por meio de longas cadeias de pensamento, me sinto constantemente jogado para lá e para cá e desviado de meu caminho pelas inúmeras e cotidianas exigências da profissão. Dificilmente poderei suportar a longo prazo esta convivência de Liceu (Paedagogium) e Universidade, pois sinto que isto prejudica e reduz a uma atividade acessória a minha verdadeira tarefa, a tarefa filosófica, pela qual, em caso de necessidade, eu precisaria sacrificar qualquer profissão. Creio que esta descrição apresenta da forma mais aguçada o que nas atuais circunstâncias me consome tanto e me impede de cumprir de forma regular e serena as tarefas da profissão, o que por outro lado me esgota fisicamente, culminando neste estado atual de padecimento que, caso deva se repetir com maior frequência, me forçaria, por motivos puramente físicos, a renunciar definitivamente à profissão de filólogo.

Neste sentido, me permito propor-vos minha candidatura à cátedra de filosofia, que está livre com a saída de Teichmüller.

No que concerne às credenciais que me autorizam a aspirar à cadeira de filosofia, devo, com efeito, testemunhar a meu próprio favor e dizer que creio possuir capacidade e conhecimento para tanto e que, tudo somado, me sinto até mesmo mais preparado para este posto do que para um puramente filológico. Quem me conhece dos meus anos de colegial e de estudante não tem nenhuma dúvida de que em mim prevalecem as inclinações filosóficas; e mesmo nos estudos filológicos o que me atraiu preferencialmente foi aquilo que me parecia ter relevância para a história da filosofia ou para os problemas éticos e estéticos. Nesta medida, invoco em meu favor o vosso parecer, com o qual estou inteiramente de acordo, de que a situação da filosofia universitária no presente é algo difícil e que, dado o número exíguo de candidatos verdadeiramente qualificados, terá alguma prerrogativa aquele que puder demonstrar uma sólida formação filológica e que for capaz de despertar nos estudantes o interesse por uma interpretação cuidadosa de Aristóteles e de Platão. Devo recordar ao senhor que já ofereci dois cursos que eram, neste sentido, de natureza filosófica: “os filósofos pré-platônicos, com interpretação de fragmentos selecionados” e “sobre a questão platônica”. Desde que estudo filologia, nunca me cansei de me manter em estreito contato com a filosofia; de modo que meu principal interesse sempre foi pelas questões filosóficas, o que pode ser comprovado por muitos que travaram contato comigo. Dos colegas daqui Overbeck, por exemplo, poderia dar algumas informações a este respeito; dos de fora ninguém poderia fazê-lo melhor que meu amigo, Dr. Rohde, que leciona em Kiel. Que eu não tenha desde o início feito meus planos universitários voltado para a filosofia é algo que, a bem da verdade, se deve atribuir unicamente ao acaso; o acaso que me privou de um professor de filosofia que fosse significativo e verdadeiramente instigante; o que, dado a constelação atual da filosofia na universidade, certamente não deve causar espanto. Se me fosse permitido seguir aqui a voz de minha natureza, é certo que com isso seria realizado um de meus mais vivos desejos; e creio poder esperar que meu estado de saúde físico se torne incomparavelmente mais estável após a eliminação daquele conflito anteriormente mencionado. Em breve eu poderei comprovar publicamente que estou suficientemente capacitado para uma cátedra de filosofia; meus trabalhos publicados sobre Diog. Laert. podem, em todo caso, fazer valer as minhas aspirações como historiador da filosofia. Eu sempre tive interesse por questões e investigações pedagógicas; poder lecionar sobre isso será uma alegria para mim. Dentre os filósofos mais recentes tenho estudado com especial predileção Kant e Schopenhauer. Dos últimos dois anos o senhor certamente terá formado sobre mim a boa impressão de que sei evitar o inadequado e o chocante e que sei diferenciar entre o que é ou não conveniente para se expor aos estudantes.

Se me é permitido apresentar ao senhor meu plano por inteiro, me ocorreu que o senhor encontraria em Rohde sucessor absolutamente apropriado para a minha cátedra de filologia e para o meu lugar no Liceu. R., que conheço perfeitamente já se fazem 4 anos, é de todos os jovens filólogos com que me deparei o mais bem preparado, e ele seria uma jóia para qualquer universidade que o contratasse. Além disso, ele ainda está disponível, embora eu tenha tomado conhecimento de que em Kiel há uma negociação no sentido de lá fixá-lo permanentemente através da criação de uma cátedra extraordinária de filologia. Não posso expressar de forma satisfatória o quanto minha existência aqui em Basel seria aliviada com a proximidade de meu melhor amigo. – Toda a mudança poderia começar com o início do novo semestre de verão, de modo que não ocorra nenhuma lacuna na ocupação dos lugares. De minha parte, eu estaria imediatamente preparado para comunicar aos senhores minhas disciplinas de filosofia e inauguraria meu novo posto com uma aula inaugural no início do verão.

Não vos deixais assustar pela peculiaridade do arranjo proposto, ilustríssimo senhor Conselheiro, e faça-a digna de vossa consideração.

Implorando por vossa indulgência, conselho e boa disposição,

Com a mais respeitosa devoção, Vosso Dr. Fr. Nietzsche, Prof. o. p. de Filol. Class.

3 comentários:

  1. Alexandra M. Lopes3 de abril de 2011 18:03

    Olá, Rogério,

    Achei interessante como Nietzsche associou seu estado de saúde ao seu cargo de filólogo, responsabilizando-o pelo seu esgotamento mental e físico. Mas o que me chamou a atenção foi a forma como ele apresentou seu desejo em assumir a cátedra de Filosofia: além de concretizar sua "verdadeira inclinação", provavelmente também evitaria o enfrentamento de uma nova doença.

    Diante disso, faço valer uma provocação: aparentemente, Nietzshe apresentou a Filosofia como um "remédio" ao seu esgotamento. Resta saber se seria um tratamento do espírito ou do corpo...

    ResponderExcluir
  2. Eu não vejo, como a Alexandra, uma associação entre a filologia e a doença, ou a filosofia como pharmakon (o que também não seria muito criativo, para um estudioso de pré-platônicos e Laércio).
    Posso estar me impondo sobre o texto, mas reconheci uma necessidade vital de filosofia, como se fosse água, sem a qual até o corpo definha... que nenhuma outra ocupação pode eclipsar.
    E não deixo nenhuma provocação pra quem nunca teve essa sensação.

    Rogério,
    o blog está ganhando sua força, continuem o belo trabalho...

    Alice (a outra)

    ResponderExcluir
  3. Alexandra M. Lopes13 de abril de 2011 11:25

    Bom, quando eu mencionei a filosofia como "remédio" (repito as aspas) eu não me referia à noção de pharmakon, mas a necessidade, como a Alice mencionou, da filosofia como algo vital, a qual provocaria fisiologicamente um estado de ânimo revigorante, contrário ao estado de saúde fragilizado o qual Nietzsche, no meu ponto de vista, pareceu considerar que as responsabilidades advindas da cátedra de filologia poderiam ter contribuído para tanto. É nesse sentido que vejo que a decisão de Nietzsche em assumir uma cátedra de filosofia pode já elucidar o privilégio ao corpo, a saúde, às coisas que são de fato relevantes para "tornar o homem aquilo que ele é", levando a vida com menos seriedade e mais alegria.

    ResponderExcluir